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Exames não tiram a masculinidade de ninguém, diz urologista

18/11/2018
Fonte: Midia News

Médico: "Novembro Azul" tem papel importante na desmistificação de tabus que envolvem a doença

 

O câncer de próstata é o que mais mata homens no Brasil, ficando atrás somente do câncer de pele. Conforme o Instituto Nacional do Câncer, um homem morre a cada quarenta minutos, um é diagnosticado a cada sete minutos e, até o final deste ano, a projeção é de diagnóstico de 69 mil novos casos no país.

 

Os exames que diagnosticam o câncer de próstata já foram um "tabu" entre os homens por muito tempo, mas com o passar dos anos - e com criação da campanha “Novembro Azul” - a conscientização ganhou força e ajuda a evitar mais mortes por conta da doença.

 

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia em Mato Grosso (SBU-MT), Pedro Ernesto Pulcherio, após a criação da campanha, muito homens passaram a procurar por ajuda, seja em orientação sobre os exames ou por mais informações da doença.

 

Em entrevista ao MidiaNews, o médico falou sobre mitos e verdades sobre os exames de toque e o PSA, ambos necessários para o diagnóstico da doença.

 

É um exame simples de ser feito, que não muda nada, não tira a masculinidade de ninguém, não é doloroso e que pode fazer a diferença, com um diagnóstico precoce

“Eu costumo dizer para os meus pacientes que o exame de próstata pode fazer diferença entre a vida e a morte. É um exame simples de ser feito, que não muda nada, não tira a masculinidade de ninguém, não é doloroso e que pode fazer a diferença, com um diagnóstico precoce. O câncer de próstata é curável, desde que descoberto com antecedência. O exame não é pra evitar o câncer, mas para descobri-lo”, disse.

 

Formado há 38 anos, o médico cuiabano também explicou quais os sintomas do câncer e como o apoio de familiares e a desmistificação em falar do assunto ajudam no processo de combate.

 

Leia a entrevista na íntegra:

 

MidiaNews – Qual a importância do "Novembro Azul" no combate ao câncer de próstata?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Nós precisamos lembrar que o tumor de próstata, tirando o câncer de pele, é o câncer que mais incide no homem na faixa de 50 e 60 anos. É o câncer que mais mata o homem, então é importante a conscientização, e eu acho que o Novembro Azul é uma maneira de você conscientizar as pessoas para as necessidades de fazer o exame preventivo. É um câncer curável, desde que descoberto na fase inicial da doença.

 
MidiaNews – A campanha se deve ao fato do homem não demonstrar interesse ou não ser totalmente consciente da gravidade do câncer de próstata ?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – De uma maneira geral, os homens são menos propensos a fazer exame preventivos que as mulheres e o resultado final disso, é que as mulheres vivem mais que os homens, porque elas são mais preocupadas com a saúde, tem a cultura de fazer essa prevenção, e o homem não tem. Mas felizmente essa realidade está sendo mudada aos poucos. Hoje nós já temos muitas pessoas procurando para fazer o exame precocemente e o Novembro Azul é a maneira de conscientizar sobre a importância do exame da próstata.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Pedro Ernesto Pulchério urologista

"O exame de próstata deve ser feito, principalmente, antes do aparecimento dos sintomas"

MidiaNews – Qual o perfil das pessoas que desenvolvem a doença?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Você tem alguns fatores de risco no aparecimento do câncer de próstata. O mais importante dele é a genética, que é quando você tem um caso de câncer de próstata na família, e as suas chances de ter o câncer dobra. Cada membro que aparecer com o câncer de próstata aumenta a sua chance de ter também. Não é obrigatório que todos os homens da família tenham, mas as chances, com certeza, aumentam. Então o fator de maior risco é a genética, mas, fora isso, também temos outros fatores.

 

MidiaNews – Quais os perfis em que a doença é mais comum?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Em homens que tem o histórico familiar com o câncer. Além disso, a raça negra é mais propensa ao câncer de próstata, assim como os obesos. A idade também influencia. Com homens mais novos pode acontecer sim, mas é muito raro. Normalmente, ele começa a incidir a partir dos 50 anos.

 

MidiaNews – Vida sedentária, estresse, fumo também são fatores que contribuem?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Sim, porque, de uma maneira geral, você não tem uma saúde boa. As pessoas que não fazem uma atividade física, que se alimentam mal, ou fazem uso do fumo, bebidas alcoólicas, são pessoas que não tem uma saúde boa.

 

MidiaNews – Ainda na juventude é possível saber se uma pessoa é mais propensa a ter a doença no futuro?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – As pessoas mais jovens não devem ter essa preocupação, só a partir dos 45 anos mesmo. Não vale a pena você ficar preocupado antes dessa época, isso gera muita ansiedade e não traz nenhum benefício. 

 

MidiaNews – Quais são os primeiros sintomas?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – É importante a gente esclarecer para a população que o exame de próstata deve ser feito, principalmente, antes do aparecimento dos sintomas. Os sintomas são relacionados a fatores obstrutivos. As pessoas começam a ter certas dificuldades para urinar, começam a urinar com mais freqüência porque não conseguem esvaziar a bexiga de uma vez. Esse é um dos principais sintomas. Mas é importante frisar que o exame deve ser feito antes da manifestação dos sintomas, porque quando eles surgem, normalmente já está numa fase bem avançada.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Pedro Ernesto Pulchério urologista

"Existe um diagnóstico de câncer de próstata a cada 7 minutos e uma morte a cada 40 minutos"

MidiaNews – O câncer de próstata, quando em estágio avançado, causa muito sofrimento ao paciente?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – É um câncer que  provoca muitas dores, porque um dos primeiros lugares que ele avança, e avança com mais velocidade, é na parte óssea. É uma dor muito intensa e o final dessas pessoas, realmente, é bem triste. Elas ficam acamadas, vão perdendo o movimento e a morte é muito complicada.

 

MidiaNews –  Qual o índice de mortalidade?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – O que eu posso falar é que, segundo o Instituto Nacional do Câncer, existe um diagnóstico de câncer de próstata a cada sete minutos e uma morte a cada quarenta minutos. Daí você tira a importância de fazer precocemente o exame preventivo. E no Brasil são esperados, em 2018, quase 69 mil casos de novos câncer de próstata. Então, é um câncer bastante incidente no homem e, muito frequentemente, leva a morte.

 

MidiaNews – E o preconceito ainda é grande com os exames?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Eles ainda têm muita resistência com o exame preventivo da próstata. Ainda vemos pessoas que se recusam a fazer os exames, e não é só por causa de nível social não. Mesmo entre pessoas de bom nível social e de cultura há dificuldade. Você tem que explicar com bastante naturalidade. Eu costumo falar para os pacientes que é um exame desconfortável, chato, mas não é doloroso a ponto de ser evitada a realização.

 

Eu costumo dizer para os meus pacientes, que o exame de próstata pode fazer diferença entre a vida e a morte. É um exame simples de ser feito, que não muda nada, não tira a masculinidade de ninguém, não é doloroso e que pode fazer a diferença, com um diagnóstico precoce, que faz muita diferença entre a vida e a morte. O câncer de próstata é curável, desde que descoberto com antecedência. O exame não serve para evitar o câncer, mas para descobri-lo.

 

MidiaNews –  Como são feitos os exames para identificar o câncer?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – A maneira de ser feita a avaliação do câncer de próstata é através do exame chamado PSA (Antígeno Prostático Específico) - enzima produzida pela próstata, que aumenta em algumas situações e principalmente no câncer de próstata - e também pelo toque retal. O toque retal não leva ao diagnóstico, mas a uma suspeita. A maneira de você fazer um diagnóstico de câncer é através da biópsia.

 

Quando você procura, é por espontaneidade, porque você tem consciência que você precisa fazer, não pode vir fazer por obrigação

MidiaNews – Ainda existem aqueles pacientes que sentem ofendidos em sua masculinidade?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Têm sim, poucos felizmente. Às vezes tem pacientes que estão dentro do consultório e se recusam a fazer o exame e, então, eu falo que eles não precisam vir. Quando você procura, é por espontaneidade, porque você tem consciência que você precisa fazer, não pode vir fazer por obrigação. Se for fazer, tem que fazer como é recomendado pela Sociedade Brasileira de Urologia, que é através do PSA e do toque, porque só o PSA não dá 100% de segurança, de que não tem o câncer.

 

MidiaNews – Por que o PSA não é suficiente para diagnosticar o câncer de próstata ?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Primeiro porque ele não altera só no câncer de próstata, ele altera em outras situações. Segundo, porque você tem uma parcela do câncer de próstata em que o PSA não sofre alteração. Estamos falando de entorno de 25% dos casos em que podemos ter o câncer de próstata, mas com o PSA normal. 

 

MidiaNews – Chegará o dia em que teremos um exame mais eficaz? Há estudos avançados sobre o tema?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Sim, a medicina tem evoluído para isso. Há uns anos atrás tinha muito mais dificuldades para fazer o diagnóstico, e hoje evoluímos com o PSA, temos ultrassom, ressonância, uma série de exames. É uma tendência evolutiva da medicina.

 

MidiaNews – A falta de educação formal do brasileiro contribui para a baixa procura pelo exame?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Sem dúvida, acho que nos países mais desenvolvidos esse exame é feito com mais freqüência, de uma maneira mais natural. Aqui no Brasil ainda encontramos um certo preconceito. Mas, como falei, felizmente isso está mudando.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Pedro Ernesto Pulchério urologista

"O exame não serve para evitar o câncer, mas para descobri-lo"

MidiaNews – As piadas em torno do exame do toque mais atrapalham ou ajudam?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Acho que hoje não atrapalham não, ou não tanto quanto antes. Hoje nós vemos empresas que encaminham funcionários para fazer o exame de próstata e isso é tratado como brincadeira por eles, então não é mais uma ofensa.

 

MidiaNews – A família tem um papel importante nessa conscientização?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Sim, o que vemos por aí, hoje, são muitos pacientes acompanhados das esposas, filhos, netos, genros. Então, a família tem acompanhado bastante. É muito comum o paciente não vir sozinho ao consultório.

 

MidiaNews – Uma pessoa que já fez os exames, deve ajudar nessa campanha pela quebra de tabu ?

 

Pedro Ernesto Pulcherio – Eu acho que de uma certa maneira, quando você tira o tabu do exame, tira também do diagnóstico, porque o câncer hoje é uma doença relativamente simples de ser tratada se descoberto precocemente. E você acaba tirando até da doença em si. Acho que isso é importante.

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