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NOTÍCIA

Data: Segunda-feira, 29/07/2019 00:00

Sem notícias, famílias de 4 pilotos se desesperam em MT

Fonte: Gazeta Digital

Quatro casos de desaparecimento de pilotos de avião em Mato Grosso registrados neste ano estão sendo investigados pela Polícia Civil e Polícia Federal. Uma das linhas de investigação é que os bimotores e monomotores estão sendo roubados para utilização no transporte de drogas, especialmente cocaína, entre Brasil e Bolívia e outros países da América Latina. Em meio a este cenário, famílias continuam na espera pelo retorno dos pilotos desaparecidos e criticam falta de respostas mesmo com crescimento dos casos.

 

Empresário do ramo do táxi aéreo que preferiu não identificar avalia como altos os números de desaparecimentos. Para ele, o que tem ocorrido é que normalmente os voos tem saído de lugares não controlados. Quando ocorre uma situação dessa, a referência para buscas fica restrita. O empresário acredita que se os casos tratassem de sequestro, os pilotos seriam liberados. Uma das expectativas é que possa ter ocorrido pane na aeronave em um local sem recursos. Em função de experiência passada, o empresário diz que as empresas vem adotando uma série de cautelas. No caso dele, não há mais voos para regiões fronteiriças e as viagens são monitoradas.

 

“O que tem ocorrido são pessoas sem noção do perigo que se sujeitam a determinadas situações. Isso as tornam mais vulneráveis. Torcemos para que estes pilotos voltem para suas casas com vida”, complementa.

 

Piloto de voos comerciais, que atua há mais de 15 anos, afirma que a profissão tem sido regida pelo medo. Segundo ele, o governo boliviano faz vistas grossas para o problema e a corrupção tem imperado neste caso. Ele frisa que os monomotores são os alvos preferenciais dos narcotraficantes porque carregam grande quantidade de carga, são de fácil pouso e por isso usados no mundo todo de forma versátil e irregular também. Diz ainda que não é novidade que assim como ocorrem com os carros roubados, as aeronaves são adulteradas. Cor, número de matrícula, tudo é pintado, muitas vezes de forma grotesca e colocadas em operação.

 

“Peço a Deus todos os dias por minha proteção. Tive colegas que foram sequestrados, uns voltaram, outros não. Infelizmente é uma coisa que vai continuar ocorrendo e vidas sendo perdidas enquanto uma situação não ser tomada pelo Governo”, salienta o piloto.

 

Neste ano mais quatro famílias somam aos casos sem respostas. Na lista dos desaparecimentos investigados está o de Joerli Silvares Teixeira, 34 anos, em Peixoto de Azevedo (691 km ao norte de Cuiabá). A esposa de Joerli informou na Polícia Civil que seu marido comprou um carro de um amigo e foi com ele para buscar em Fortaleza (CE). Os dois foram de avião e o desaparecimento foi registrado no dia 07 de maio deste ano. Outro caso foi registrado neste mês onde o piloto Valmir Nogueira Moreira, desapareceu após decolar em uma aeronave de um hangar em Poconé (a 104 km ao sul) com destino a Corumbá (MS).

 

Em abril, o piloto Cleiton Figueiró Rodrigues, morador de Sinop (500 km ao norte) viajou para o Estado do Pará acompanhado de um colega. Ambos permaneceram no Pará por uma semana a trabalho, após esse tempo o colega retornou sozinho para Sinop alegando que sua esposa estaria grávida e teria passado mal. Desde então o piloto Cleiton não foi mas visto. Em janeiro deste ano, o piloto Valdemir Elias do Carmo, saiu de Alta Floresta (803 km ao norte) e foi deixado em uma pista de garimpo chamada Tabocal no Pará, de onde pegou um avião e a partir daí desapareceu, não deu mais notícias a família.

 

Famílias aguardam respostas 
Há quase quatro anos, a produtora de eventos, Adriana Cristina da Silva sofre com a falta de respostas quanto ao desaparecimento do piloto Reverson Luis Bonan. O piloto fez seus últimos contatos telefônicos com a família e sumiu, no dia 13 de dezembro de 2015, em Ponta Porã (MS), fronteira com o Paraguai. Ele pilotava uma aeronave modelo Baron PT-JZD, em um serviço particular para uma empresa de pulverização agrícola. Adriana afirma não ter mais esperanças que Bonan esteja vivo, mas cobra ação das autoridades frente a tantos desaparecimentos sem respostas.

 

“É incrível como tantos pilotos estão desaparecendo e ninguém faz nada. Dá uma sensação de impunidade é um descaso essa falta de respostas”, diz.

 

Adriana acredita que o marido foi vítima de sequestro, teve a aeronave roubada e foi morto. Ela descreve Reverson como um homem muito apaixonado por aviação, que era feliz com a profissão e não tinha qualquer inimizade. O caso está sob investigação da 1ª Delegacia de Ponta Porã. Na época a polícia local também trabalhou com a hipótese do piloto ser vítima do tráfico.“Ele era muito responsável. Não era bandido e nem estava metido com coisa errada.Tratam este assunto como se fosse um bandido ou indigente. Não se preocupam com a família e muito menos com ele que desapareceu”, ressalta.

 

Também segue sem respostas a família do piloto mato-grossense Felipe Meireles Zamberlan, desaparecido em junho do ano passado. Morador de Sapezal (480 km a noroeste), Felipe saiu de casa dizendo que iria para Cuiabá de ônibus, e depois seguiria para Goiânia em um voo comercial. Lá encontraria com uma pessoa que o havia contratado para realizar um voo até Palmas (TO). A partir do dia 24 de junho, a vítima passou não mais responder as mensagens e não atendia as ligações. Amigo de Felipe que preferiu não identificar, diz que familiares já estão desesperançosos. Uma das hipóteses segundo o amigo, é que num caso de Novo Progresso que o piloto confessou ter matado passageiro, a vítima tenha sido Felipe, mas o corpo não foi encontrado.

 

O caso mais recente, sob investigação da Polícia Federal, é de um piloto que desapareceu após fazer uma viagem a trabalho para Mato Grosso do Sul no dia 04 de julho. Vamir Nogueira que saiu de Poconé e seguiu para Corumbá (MS). O retorno estava marcado para o dia 8 mas ele não apareceu e os familiares não conseguem contato. O receio é que Vamir tenha sido vítima de sequestro pois Corumbá é uma região de fronteira. O sobrinho Lázaro dos Santos Júnior diz que a PF está trabalhando com o fato do tio ter sido pego pelo tráfico. A expectativa, segundo ele, é que os criminosos estejam usando a aeronave e o piloto para o transporte e depois o soltem, como já ocorreu com outros pilotos. “Temos essa esperança, pois não queremos crer que lhe tenham lhe feito um mal maior. Estamos sem muitas respostas, eles nos passam apenas algumas informações e repetem que a polícia está trabalhando”, enfatiza.

 

Outro lado 
A Polícia Federal foi procurada para posicionamento, mas não se manifestou até o fechamento da reportagem. A Polícia Civil afirma que os casos foram repassados também a PF por se tratar de espaço aéreo.